"Inconscientemente, parecia querer buscar em autores, filmes e músicas, algum tipo de consolo. Como se alguém precisasse chegar bem perto do sofá, onde estava, colocar um das mãos em seu ombro e dizer que aquilo era normal. Que acontecia também com outras pessoas. E que iria passar…"
[Caio Fernando Abreu]
Às vezes eu queria tirar de cima de mim aquele amor, com violência. Era um peso que me ocupava inteira, a alma, o peito, a pele. Invadia-me, não conseguia livrar-me dele. Tentava continuamente ser “leve”, mas era como se a vida me desse ordem de respirar pela metade. Desesperava-me pela falta de informações. Não tinha dados. Sentia-me como um veleiro às cegas, apenas com o auxilio da intuição... que sempre me falhava. Vivia com o fôlego suspenso. Sentia-me numa espécie de zona franca onde ele dominava todo o fluxo e movimento. Para depois ir embora. Para suportar os intermináveis minutos que passava sem conversarmos ou vê-lo ao longe, inspirava, fazia entrar oxigênio nos pulmões, pensava continuamente que era necessário aprender a entreter-me, impunha-me distrações que no máximo se revelavam inúteis. Os livros falavam dele. As músicas cantavam minha angústia. Os filmes contavam nossa história. Às vezes, caminhava por horas até cansar. À noite os estados do coração. Leves borboletas que se agitam dentro do peito, pequenas dores ali, no centro como se a imaginação estivesse tomando posse da melhor parte da minha razão. Isso, porque amores platônicos têm urgências que o cotidiano não contempla. Quando o sono vinha-me, sonhava acordar com o espírito livre. Em alguns momentos, foi atroz, creia-me.
O coração ficava pesado, queria arrancá-lo e colocá-lo num lugar diferente do meu peito atormentado. Sem remédio. Sem cura. Sem absolvição. Ou clemência. Uma mixórdia de sentimentos que bombeavam aqui e ali, indecisos entre melancolia e alegria. Violência e doçura. Seduzidos pela necessidade de harmonia e impacientes pela inquietação dos contrates.
Pretérito imperfeito? Não.
O amor é sempre sinônimo de catástrofe. Ama-se por toda a vida principalmente quem não nos corresponde com a mesma intensidade. Usa-se o tempo para atenuar o amor. Que, em vez disso, multiplica-se. Como células de um câncer. Até matá-la.

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